domingo, 26 de junho de 2022

mar sonoro

mar sem fundo

mar sem fim

a tua beleza aumenta

quando estamos sòs

è tão funda intimamente


a tua voz segue o mais secreto bailar 

do meu sonho que momentos há


em que eu suponho seres um milagre

criado para mim
 

jardim perdido

jardim em flor

jardim da impossessão

transbordantes de imagens

mas informe

em ti se dissolveu o mundo

enorme carregando de amor 

e solidão a verdura das árvores

ardia o vermelho das rosas

 transbordava alucinado

cada ser subia num tumulto


em que tudo germinava a luz trazia em si

a agitação de paraísos deuses e de infernos


e os instantes em ti eram eternos de possibilidades

e suspensão mas cada gesto em ti se quebrou denso


de um gesto mais profundo em si contido pois trazias

em ti sempre suspenso outro jardim possível e perdido
 

cheiro a terra

as árvores e o vento

que a primavera enche

de perfumes mas neles

sò quero e sò procuro

a selvagem exalação

das ondas subindo

para os astros como

um grito puro
 

de todos

os cantos do mundo

amo com amor mais

forte e mais profundo

aquela praia extasiada

e nu onde uni - me ao mar

ao vento e à lua

 

è o teu rosto

que eu procuro ainda

através do terror e da distância

para a reconstrução de um mundo

puro
 

se tanto

me dói que as coisas passem

è porque cada instante em mim

foi vivo na luta por um bem definitivo

em que as coisas do amor se eternizassem
 

retrato de uma princesa desconhecida

para que ela tivesse um pescoço tão fino

para que os seus pulsos tivessem um quebrar

de caule ara que os seus olhos fossem tão

frontais e limpos para que a sua espinha fosse 

tão direita e ela usasse a cabeça cabeça tão

erguida com uma tão simples claridade sobre

a testa foram necessárias sucessivas gerações

de escravos de corpos dobrados e grossas mãos

pacientes servindo sucessivas gerações de príncipes

ainda um pouco toscos e grosseiros  ávidos cruéis


e fraudulentos foi um imenso desperdiçar de gente

para que ela fosse aquela perfeição solitária exilada


sem destino

 

as rosas

quando à noite desfolho e trinco

as rosas è como  se prendesse

entre meus dentes todo o luar

 das noites transparentes todo

o fulgor das tardes luminosas

o vento bailador das primaveras


a doçura amarga dos poentes e a exaltação

de todas as esperas
 

Flora

sinto que hoje novamente

embarco para grandes aventuras

passam no ar palavras obscuras

e o meu desejo canta

por isso marco nos sentidos


a imagem desta hora sonoro e profano

aquele mundo que eu sonhara e perdera


espera o peso dos meus gestos e dormem

mil gestos nos meus dedos


desligados  os dedos dos circuitos funestos

das mentiras alheias finalmente solitárias


as minhas mãos estão cheias de expectativas

e de segredos como os negros arvoredos


que baloiçam na noite a murmurar ao longe

por mim oiço a chamar a voz das coisas que eu


sei amar e de novo caminho para o mar
 

liberdade

aqui nesta praia onde não há vestígios

de impureza 

aqui onde há somente

ondas a tombarem ininterruptamente

puro espaço e lúcida unidade

aqui o tempo apaixonadamente

encontra a própria liberdade
 

num deserto sem água

numa noite sem lua

num país sem nome

ou numa terra nua

por  maior que seja

o desespero nenhuma

ausência è mais funda

 do que a tua
 

a minha vida è

o mar o Abril a rua

o meu interior è uma atenção

voltada para fora o meu viver

escuta a frase que de coisa em

coisa silabada grava no espaço

e no tempo a sua escrita

não trago Deus em mas no mundo

procuro sabendo que o real mostrará

não tenho explicações olho e confronto

e por método è nu meu pensamento a terra


o sol o vento o mar são minha biografia

e são meu rosto por isso não me peçam


cartão de identidade pois nenhum outro

senão o mundo


não peçam opiniões nem entrevista

não me perguntem datas nem moradas


de tudo quanto vejo me acrescento

e a hora da minha morte aflora 


lentamente cada dia preparado
 

porque

os outros se mascaram

mas tu não

porque os outros usam

a virtude para comprarem

o que não tem perdão


porque os outros tem medo mas tu não
 

para ser grande

sê inteiro nada teu exagera ou exclui

sê todo

em cada coisa põe quanto ès

no mínimo que fazes

assim logo a lua brilha porque

alta vive
 

esperança

e desespero de alimento me servem

neste dia em que te espero e já não sei

se quero ou não quero tão longe de razões

è o meu tormento mas como usar o amor

de entendimento ? daquilo que te peço

desespero ainda que me dês pois o que eu 

quero ninguém  o dà por um momento

como belo amor de não durares de ser tão

breve o teu engano e de eu possuir - te

sem tu te dares amor perfeito dado a um


ser humano tambèm morre o florir de mil

pomares e se quebram as ondas nos oceanos
 

para atravessar

contigo o deserto do mundo

para enfrentarmos juntos o terror

da morte para ver a verdade para

perder o medo ao lado dos teus

passos caminhei por ti deixei

meu reino meu segredo minha

rápida noite meu silêncio minha

pérola redonda e seu oriente meu

espelho minha vida minha imagem

e abandonei os jardins do paraíso


cà fora à luz sem vèu do dia duro

sem espelhos vi que estavas nua


e ao descampado se chamava tempo

por isso com os teus gestos me vestiste


e aprendi a viver em pleno vento
 

chamo - te

porque tudo està no principio

e suportar è o tempo mais comprido

peço - te que venhas e me dês liberdade

que um sò dos teus olhos me purifique

a acabe há muita coisa que eu não quero

ver peço - te que sejas o presente

peço que inundes tudo e que o teu reino


antes do tempo venha e derrame sobre a terra

em primavera feroz precipitado
 

bebido

o luar èbrios de horizontes

julgamos que viver era abraçar

o rumor dos pinhais o azul dos

 montes e todos os jardins verdes

do mar apagam - se exteriores e

 tornam - se os fantasmas que sonhamos

porquê jardins que não colheremos límpidos

nas auroras a nascer porquê o céu e o mar

se não seremos nunca os deuses capazes

de o viver

 

sexta-feira, 24 de junho de 2022

se tanto me dòi

que as coisas passem è porque

cada instante em mim foi vivo

na luta por um bem definitivo

as coisas de amor se eternizassem
 

vou

dizendo aos astros o meu mal

è porque tambèm tu revoltada

e teatral fazes soar a tua dor

pelas alturas e antes de tudo

odeio e fujo do que è impuro

profano e sujo è sò porque as

tuas ondas são puras
 

nunca

nunca nenhum bem me satisfez

è porque as tuas ondas desfeitas

pelas areias mais fortes se

 levantaram outra vez que após

cada queda caminho para vida 

por uma nova ilusão
 

mar

metade da minha alma è feita de maresia

pois pela mesma inquietação e nostalgia

que há no vasto clamor de maré cheia
 

sò então

poderemos caminhar através do mistério

que se embala no verde dos pinhais na voz

do mar e em nòs germinará a sua fala
 

o vento

levará os mil cansaços dos gestos agitados irreais

e há - de voltar aos nossos membros laços a leve

rapidez dos animais
 

um dia mortos gastos

voltaremos a viver livres como os animais

e mesmo tão cansados floriremos irmãos

vivos do mar e dos pinhais
 

25 de Abril

esta è a madrugada que eu esperava

o dia inicial inteiro limpo onde 

imergimos da noite e o silêncio

e livres habitamos a substância

do tempo
 

quando

eu morrer voltarei

para buscar

os instantes que não vivi

junto ao mar
 

peço - te que sejas o presente

peço - te que inundes tudo

e que o teu reino antes do tempo

venha e derrame sobre a terra em

primavera feroz precipitada
 

peço - te

peço - te que venhas e me dês a liberdade

que um dos teus olhos me purifique acabe

há muita coisa que eu não quero ver
 

chamo - te

porque tudo està ainda no principio

e suportar è o tempo mais comprido
 

porquê

jardins que não colheremos

límpidos nas auroras a nascer

porquê o céu e o mar se não

seremos nunca os deuses capazes

de viver
 

mas solitários somos

somos e passamos não são os nossos

frutos nem as flores e o céu e o mar

apagam - se exteriores e tornam - se

os fantasmas que sonhamos
 

bebido o luar

ebrios de horizonte

julgamos que viver

era abraçar o rumor

dos pinhais azul dos montes

e todos os jardins verdes do mar
 

quinta-feira, 23 de junho de 2022

para ti

eu criei um dia puro

livre como o vento

e repetido como o florir

das ondas ordenadas
 

que

nenhuma estrela queime

o teu perfil que nenhum

deus se lembre do teu nome

que nem o vento que passe

onde tu passas
 

soa

quando no fundo dos espelhos me è estranho

e longínquo a minha face e de mim se desprende

a minha vida
 

a hora

da partida soa quando

as árvores parecem inspiradas

como se tudo nelas germinasse
 

a hora da partida

soa quando escurece o jardim

e o vento passa estala o chão

e as portas batem quando a noite

cada nò se descalça
 

porque

os outros vão à sombra dos abrigos

e tu vais de mãos dadas com os perigos

porque os outros calculam mas tu não
 

porque os outros

se compram e se vendem

e os seus gestos dão sempre

 dividendo porque os outros

são hábeis mas tu não
 

porque

os outros são os túmulos

caiados onde germina

calçada a podridão

porque os outros se calam

mas tu não
 

porque os outros se mascaram

mas tu não porque os outros

usam a virtude para comprar

o que não tem perdão

porque os outros tem medo

mas tu não
 

terror de te amar

num sitio tão frágil como o mundo 

mal de te amar neste lugar de imperfeição

onde tudo nos quebra e emudece

onde tudo nos mente e nos separa

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Os pêssegos

lembram adolescentes nus

a doirada pele das nádegas

com marcas de carmim a

 penugem leve mais encrespada

e fulva em torno do sexo destendido

e fácil vulnerável aos desejos que quem

 sò o contempla e não ousa aproximar dos

flancos matinais a crepuscular lentidão

dos dedos
 

o amigo

não voltará o que dele ficou è como

no inverno entre cortinas de chuva 

um tímido fio de sol ilumina mas

não aquece as mãos
 

as mãos

que tristes tão inúteis

essas mãos que nem sequer

são flores que se dêem

abertas são apenas abandono

fechadas são pálpebras imensas

carregadas de sono
 

sobre a terra

sei que estou vivo e cresço

sobre a terra não porque

 tenha mais poder nem mais

 saber nem mais haver

como lábio que suplica

outro lábio com pequena

branca chama de silêncio


como sopro obscuro do primeiro crepúsculo

                    sei que estou vivo

                  vivo sobre o teu peito

                   sobre os teus flancos

                      e cresço para ti


 

arte de navegar

vê como o verão

     subitamente

se faz água no teu peito

e a noite se faz barco

e as minhas mãos marinheiro

de obscuro domínio
 

a raiz do linho


 foi o meu alimento

foi o meu tormento

mas então cantava

a breve

azul cantilena dos teus

olhos quando anoitecem
 

ò clara

brava companheira que jamais ao meu lado temeste precipícios ou sombras là no fundo dos teus mares que navio irrompe do teu sexo  vindo dos ...