mar sem fim
a tua beleza aumenta
quando estamos sòs
è tão funda intimamente
a tua voz segue o mais secreto bailar
do meu sonho que momentos há
em que eu suponho seres um milagre
criado para mim
mar sem fim
a tua beleza aumenta
quando estamos sòs
è tão funda intimamente
a tua voz segue o mais secreto bailar
do meu sonho que momentos há
em que eu suponho seres um milagre
criado para mim
jardim da impossessão
transbordantes de imagens
mas informe
em ti se dissolveu o mundo
enorme carregando de amor
e solidão a verdura das árvores
ardia o vermelho das rosas
transbordava alucinado
cada ser subia num tumulto
em que tudo germinava a luz trazia em si
a agitação de paraísos deuses e de infernos
e os instantes em ti eram eternos de possibilidades
e suspensão mas cada gesto em ti se quebrou denso
de um gesto mais profundo em si contido pois trazias
em ti sempre suspenso outro jardim possível e perdido
que a primavera enche
de perfumes mas neles
sò quero e sò procuro
a selvagem exalação
das ondas subindo
para os astros como
um grito puro
amo com amor mais
forte e mais profundo
aquela praia extasiada
e nu onde uni - me ao mar
ao vento e à lua
è porque cada instante em mim
foi vivo na luta por um bem definitivo
em que as coisas do amor se eternizassem
para que os seus pulsos tivessem um quebrar
de caule ara que os seus olhos fossem tão
frontais e limpos para que a sua espinha fosse
tão direita e ela usasse a cabeça cabeça tão
erguida com uma tão simples claridade sobre
a testa foram necessárias sucessivas gerações
de escravos de corpos dobrados e grossas mãos
pacientes servindo sucessivas gerações de príncipes
ainda um pouco toscos e grosseiros ávidos cruéis
e fraudulentos foi um imenso desperdiçar de gente
para que ela fosse aquela perfeição solitária exilada
sem destino
as rosas è como se prendesse
entre meus dentes todo o luar
das noites transparentes todo
o fulgor das tardes luminosas
o vento bailador das primaveras
a doçura amarga dos poentes e a exaltação
de todas as esperas
embarco para grandes aventuras
passam no ar palavras obscuras
e o meu desejo canta
por isso marco nos sentidos
a imagem desta hora sonoro e profano
aquele mundo que eu sonhara e perdera
espera o peso dos meus gestos e dormem
mil gestos nos meus dedos
desligados os dedos dos circuitos funestos
das mentiras alheias finalmente solitárias
as minhas mãos estão cheias de expectativas
e de segredos como os negros arvoredos
que baloiçam na noite a murmurar ao longe
por mim oiço a chamar a voz das coisas que eu
sei amar e de novo caminho para o mar
de impureza
aqui onde há somente
ondas a tombarem ininterruptamente
puro espaço e lúcida unidade
aqui o tempo apaixonadamente
encontra a própria liberdade
num país sem nome
ou numa terra nua
por maior que seja
o desespero nenhuma
ausência è mais funda
do que a tua
o meu interior è uma atenção
voltada para fora o meu viver
escuta a frase que de coisa em
coisa silabada grava no espaço
e no tempo a sua escrita
não trago Deus em mas no mundo
procuro sabendo que o real mostrará
não tenho explicações olho e confronto
e por método è nu meu pensamento a terra
o sol o vento o mar são minha biografia
e são meu rosto por isso não me peçam
cartão de identidade pois nenhum outro
senão o mundo
não peçam opiniões nem entrevista
não me perguntem datas nem moradas
de tudo quanto vejo me acrescento
e a hora da minha morte aflora
lentamente cada dia preparado
mas tu não
porque os outros usam
a virtude para comprarem
o que não tem perdão
porque os outros tem medo mas tu não
sê todo
em cada coisa põe quanto ès
no mínimo que fazes
assim logo a lua brilha porque
alta vive
neste dia em que te espero e já não sei
se quero ou não quero tão longe de razões
è o meu tormento mas como usar o amor
de entendimento ? daquilo que te peço
desespero ainda que me dês pois o que eu
quero ninguém o dà por um momento
como belo amor de não durares de ser tão
breve o teu engano e de eu possuir - te
sem tu te dares amor perfeito dado a um
ser humano tambèm morre o florir de mil
pomares e se quebram as ondas nos oceanos
para enfrentarmos juntos o terror
da morte para ver a verdade para
perder o medo ao lado dos teus
passos caminhei por ti deixei
meu reino meu segredo minha
rápida noite meu silêncio minha
pérola redonda e seu oriente meu
espelho minha vida minha imagem
e abandonei os jardins do paraíso
cà fora à luz sem vèu do dia duro
sem espelhos vi que estavas nua
e ao descampado se chamava tempo
por isso com os teus gestos me vestiste
e aprendi a viver em pleno vento
e suportar è o tempo mais comprido
peço - te que venhas e me dês liberdade
que um sò dos teus olhos me purifique
a acabe há muita coisa que eu não quero
ver peço - te que sejas o presente
peço que inundes tudo e que o teu reino
antes do tempo venha e derrame sobre a terra
em primavera feroz precipitado
julgamos que viver era abraçar
o rumor dos pinhais o azul dos
montes e todos os jardins verdes
do mar apagam - se exteriores e
tornam - se os fantasmas que sonhamos
porquê jardins que não colheremos límpidos
nas auroras a nascer porquê o céu e o mar
se não seremos nunca os deuses capazes
de o viver
cada instante em mim foi vivo
na luta por um bem definitivo
as coisas de amor se eternizassem
è porque tambèm tu revoltada
e teatral fazes soar a tua dor
pelas alturas e antes de tudo
odeio e fujo do que è impuro
profano e sujo è sò porque as
tuas ondas são puras
è porque as tuas ondas desfeitas
pelas areias mais fortes se
levantaram outra vez que após
cada queda caminho para vida
por uma nova ilusão
pois pela mesma inquietação e nostalgia
que há no vasto clamor de maré cheia
que se embala no verde dos pinhais na voz
do mar e em nòs germinará a sua fala
e há - de voltar aos nossos membros laços a leve
rapidez dos animais
e mesmo tão cansados floriremos irmãos
vivos do mar e dos pinhais
o dia inicial inteiro limpo onde
imergimos da noite e o silêncio
e livres habitamos a substância
do tempo
e que o teu reino antes do tempo
venha e derrame sobre a terra em
primavera feroz precipitada
que um dos teus olhos me purifique acabe
há muita coisa que eu não quero ver
límpidos nas auroras a nascer
porquê o céu e o mar se não
seremos nunca os deuses capazes
de viver
frutos nem as flores e o céu e o mar
apagam - se exteriores e tornam - se
os fantasmas que sonhamos
julgamos que viver
era abraçar o rumor
dos pinhais azul dos montes
e todos os jardins verdes do mar
o teu perfil que nenhum
deus se lembre do teu nome
que nem o vento que passe
onde tu passas
e longínquo a minha face e de mim se desprende
a minha vida
e o vento passa estala o chão
e as portas batem quando a noite
cada nò se descalça
e tu vais de mãos dadas com os perigos
porque os outros calculam mas tu não
usam a virtude para comprar
o que não tem perdão
porque os outros tem medo
mas tu não

mal de te amar neste lugar de imperfeição
onde tudo nos quebra e emudece
onde tudo nos mente e nos separa
a doirada pele das nádegas
com marcas de carmim a
penugem leve mais encrespada
e fulva em torno do sexo destendido
e fácil vulnerável aos desejos que quem
sò o contempla e não ousa aproximar dos
flancos matinais a crepuscular lentidão
dos dedos
no inverno entre cortinas de chuva
um tímido fio de sol ilumina mas
não aquece as mãos
essas mãos que nem sequer
são flores que se dêem
abertas são apenas abandono
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono
sobre a terra não porque
tenha mais poder nem mais
saber nem mais haver
como lábio que suplica
outro lábio com pequena
branca chama de silêncio
como sopro obscuro do primeiro crepúsculo
sei que estou vivo
vivo sobre o teu peito
sobre os teus flancos
e cresço para ti
subitamente
se faz água no teu peito
e a noite se faz barco
e as minhas mãos marinheiro
de obscuro domínio
brava companheira que jamais ao meu lado temeste precipícios ou sombras là no fundo dos teus mares que navio irrompe do teu sexo vindo dos ...